terça-feira, 7 de agosto de 2007

TARTUFO

Alguém um dia perguntou: - “QUEM ÉS TU?” Não soube respondê-lo. Meu peito encheu-se de tristeza. Velhas palavras são fáceis de serem ditas, mas outras. . .Não sabia por onde começar. Se eu fosse mais matreiro, uma desculpa ou mentira sobre mim logo diria... Perdoem-me não sei mentir... Engasgo. As palavras não vêem a memória... E a verdade é dura como meu coração. Se bom orador eu fosse logo falava em boa entonação:

- Eu, gentil dama, ou senhor, não sou muito melhor que a escória. Em meu peito rochoso a heresia trago; grito em boa voz a inexistência de um DEUS CARPINTEIRO. Bebo, danço e namoro damas de passado fechado. Em meu amargurado coração não carrego uma alma de beleza, Mas sim um ataúde vazio onde deveria descansa Tartufo.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

UMA NOITE PERDIDA NO TEMPO

I - A noite

Ó noite que deita trazendo inimagináveis presságios. Será que lembrarão de ti quando o sol nascer? TU vieste já velha, decrépita e esquecida... Perdida nas visões silenciosas deste amargo tempo. Que tempo? Até as estrelas no firmamento não existem mais. Tu és um delírio agourento, pesadelo ardente... Remorso devorador e companheiro dos males deste século obscuro. Não existem mais horas para serem vividas. Não existem mais lembranças para serem esquecidas. Existe apenas esta noite de venturas perdidas. Limbo da existência corrompida pela doença da memória. De ti emergem-se os vapores das alucinações da febre em desenfreados espirais. Nem da mais profunda Borgia sai tão obscura treva. Noite! Tu que envolve todas as verdes e alegres pastagens; faz correr acelerado, sem sua lira, o pastor árcade; Atormenta no leito o tísico desenganado; morada fantástica dos monstros de sombrias eras antigas... Por que arremessou teu manto sobre está taverna? Será porque a porta de entrada traz o diadema de ANATKH? Ninguém levanta uma mão para destroçá-lo, suprimi-lo. Nesta taverna não há um que clame por salvação. Todos já sabem de suas condenações. Por isso brindam a elas.

Noite! Noite perdida nas negruras deste intemporal século, por que envolve esta taverna?

Lugar conhecedor de incontáveis comédias humanas sejam elas do amor fervoroso dos amantes, ou histórias de guerras e ódio de velhos soldados. Cada velha cadeira e mesa têm suas cicatrizes, testemunhas das veracidades de fatos vivenciados, ou sonhados. Tanto faz. Nunca serão questionados. Lugar de grandes alquimias mágicas e nefastas. Garrafa onde nasce o amálgama dos cheiros e sabores. Aos pés das crias de nobre fidalguia ou berço vulgar deitam-se dezenas de homens enroscados em suas amantes. Em seus semblantes perdidos além dos portais dos campos de Morpheus, um ou outro, geme ainda uma louca blasfêmia, tateando em busca de sua preferida companheira. Lugar onde a sorte tem mais valor que a vida. Pois a primeira vale mais na busca de moedas para um novo copo de vinho. Taças sempre cheias graças a uma bacante horrorosa. Belas são as jovens, de pele morena, filhas de Sarai, adormecidas, cansadas e bêbadas. Dos indecentes decotes, feitos pequenos filhotes, surgem seus seios ardentes. Quantos beijos desmedidos aqueles lábios embriagados distribuíram? Lugar acolhedor de música pagã e ofensiva. Teus violeiros já foram embora cambaleando. Deixaram para trás um desmaiado sobre o seio de uma meretriz. Grande fanfarrão este! – deixou mulher e pequenino em casa – dorme como poucos o sono de uma mente atormentada. Quantos séculos ainda precisaram para que tudo isto acabe?

Noite! Noite perdida nas comédias deste intemporal século, de ti brotam filhos de vidas desfeitas...

II - A taverna

Acendam meu charuto e encham minha taça de vinho – Solfieri grita. Marginais! Ficaram bêbados com tão pouca bebida? Ergam-se de vossas cadeiras e brindem de novo comigo a glória da Morte. Ilustre desconhecida que poderemos encontrar a qualquer momento. Vejam em vosso redor que as donzelas de todos já estão dormindo. Não tentem acordá-las. Bebamos nesta mesa. O altar de amarguras. Uma nova garrafa de vinho já em vem. O dia logo irá nascer. Bebamos a isto e a tudo que não presta nesta terra.

Só resta tu, Alexander, de todos nós. Acorda-te macilento fantasma. Junta-te a nós seis. Tornando-nos sete. Tu bem sabes como é cabalístico este número. Sete pecados. Sete letras no nome dela. Sete selos intactos. Sete noites marcadas. Vês? Quem sabe atraímos a atenção de Lúcifer? Acorda-te, saía debaixo desta saia. Tua amante jaz em um sono mais profundo do que tu. É triste ver tão galante cavalheiro arremessado num chão sujo. Se as donzelas o vissem assim, fugiriam de te apressadas. Ah! Vejo que acordastes. Levanta-te, eu ajudo. Afinal para que serve os comparsas de copo? O que disse? Não entendi. Estás caindo de sono.

Há! Há! Há! Vejam condenados da barca do inferno! Nosso ilustre barqueiro balança ao ritmo do rio Arqueonte.

TABERNEIRA! Oh! Taberneira traga uma caneca cheia de cognac para Alexander. Só resta tu, Alexander de todos nós. Só resta tu, para contar-nos uma de suas aventuras. Peço-te, caro amigo, conte um pouco de vossas exóticas andanças. De todos aqui, tu conheces mais as nuances das desventuras.

FIRMA TEU CORPO, cria de Satã!!! Só resta tu, Alexander. Logo o dia nascerá. Levando nossos corpos para a sepultura da vida. Brindemos agora os favores da solidão e do esquecimento. Façamos isto, antes de vossa voz pantanosa levar-nos para terras estranhas, sombrias do exótico mundo onírico...

Eu, antes quero desculpar-me com vós. – Alexander – Os vinhos de excelente safra, os cognacs de gosto forte, os vapores do ópio e os beijos quentes, secos na verdade, desta desfalecida e bela meretriz roubaram meus sentidos. Assim não ouvi vossas histórias o que muito me mortifica. Perdoem-me.

Lembranças atraíram lembranças. Exemplo disto, eu estou aqui em frente de vós. Cada um já contou uma de vossas aventuras, sejam elas alegres, ou não. Isto não importa. A verdade é que cobram de mim semelhante ato. Ah! Amigos! Sempre quis que minhas vagas lembranças de dias esquecidos, na frente de um algoz, fossem perdidas para sempre... Mas não é da minha natureza contrariar meus camaradas. Longe disto. Pois então convoco a todos neste antro. Aproximem-se, cerquem-me e atentai vossos ouvidos. Uma história vós contarei.

Taverna... Taverna! Tu és a mais perversa cria do homem. Tu acolheste-me sem nada perguntar. Deu-me o que beber; o que comer; o que perder; deu-me amor mercenário para comigo dormir. Eis que vossos vermes freqüentadores de mim... DE MIM! Cobram o preço de em ti abrigar. Talvez, haja nas profundas moradas sepulcrais, onde sinos dobram relembrando vidas passadas, seres menos perversos que estes aqui.

Ó Criaturas das negras pastagens do tempo vedes como são os homens condenados. Jamais os imite. Continuais fieis a vossos obscuros princípios. Fugi-vos dos desejos que dormem na mente dos homens. Fugi-vos da fome do saber.

Posto que eu não sou um moribundo à espera da extrema-unção. Posto que não sou um infeliz cadáver com uma moeda na boca. Muito menos um Cão de Tindalos. A nenhum de vós devo entendimento. Mas as horas são tão curtas e logo terei que contemplar um novo nascer do sol. Porta, porta de meu passado abra lentamente. Mostre a todos aqui meus segredos.

III - Alexander

Sabeis que eu sou um viajante caros comparsas, Solfieri, Bertram, Gennaro, Claudius Hermam, Johann, Arnold e todos vós que me escutais neste instante de desventura, não das trilhas comuns do reino dado ao homem, mas das estranhas paragens onde o sonho une-se com a realidade. Caminhos estranhos e perigosos. Locais esquecidos e perdidos do olhar humano. Terras ermas e solitárias, tão velhas quando a criação. Sigo por tais caminhos orientado por antigos manuais. Sem os quais, lá eu estaria perdido nos labirintos de montanhas e florestas pouco conhecidas...

Ah! Quão triste é lembrar destas viagens. A lembrança do vento do norte alisando o meu rosto aperta meu coração. Tal como uma donzela a leves toques, convidando-me a seguir naqueles estranhos caminhos. Toda a dor, todo o sofrimento e angústia, são pouco diante da grandiosidade daquelas terras. Nenhuma punição do inferno será tão dolorosa, quanto o martírio de estar longe, depois de se conhecer aquela natureza fantástica. Vós me daríeis razão se experimentastes o doce perfume do nephalot de flores púrpuras, bebestes dos regatos cristalinos das montanhas orientais, e ouvistes a canção sussurrante do rio P’trast.

Sim, homens sem fé! Caminhei por florestas sombrias; por planícies sonolentas de grama alta; por desertos poeirentos; por trilhas rochosas e antidiluviais. Conheci, feito aprendiz e a natureza, o mestre, as maravilhas das terras oníricas. Vi, as indescritíveis construções dos velhos e antigos moradores da terra. Além, das obras dos homens que já se foram. Atravessei os caminhos por onde passou o exército de Yscandar dos Dois Cornos e apreciei o que restou de suas cidades. Foi nestas paisagens onde a conheci...

Sob um crepúsculo de cor carmesim que anunciava uma noite estrelada. Nos contrafortes rochosos e solitários das montanhas de Yaanek, onde jazia em empoeiradas ruínas cidades ancestrais, naquele momento antes de penumbra, eu a encontrei. A mais bela imagem num cenário doloroso ao coração. Qualquer mortal, caros fantasmas, se deixaria perder em pensamentos de luto ao ver cada entalhe daquele mundo perdido. Não há coração, dor, ou espírito embrutecido que não se dobre diante da desolação aos pés das montanhas de Yaanek. Mesmo eu, conhecedor de inomináveis estradas e desolações, senti-me atraído a cair de joelhos naquelas terras. Entretanto, fantasmas ouvintes não me desfiz em uma tristeza sem par por causa dela...

Homens de pouca fé! Desafio-vos de encontrar uma criatura de rara beleza como aquela. Na solidão das ruínas éramos os únicos a ver o espetáculo do poente e a sentir o vento em nossos cabelos. Lembro tristemente daquela figura. Seu cabelo negro vivido entregue ao vento suave e sussurrante do oeste... Aproximei, cauteloso, temendo estar diante de uma alucinação provocada pelo meu espírito. Ela não se assustou com a minha presença. Continuou abaixada colhendo pequenas flores de amaheim e nephalot. Em meu peito, senti o amor crescer tal quais aquelas pequenas e perfumadas flores nas manhãs de primavera. Diante daquela figura, o amor transbordou em meu peito feito mar revolto. Ajoelhei-me ao ver seus olhos. Dois olhos escuros onde o brilho do crepúsculo possuía uma vida sem igual. Seu nariz aquilino dizia-me que ela não era filha dos homens daquelas terras...

Taberneira! Encha meu copo de cognac e tu, Johann, dá-me teu charuto. O meu peito dói e a garganta seca, quando lembro aquela tarde fantástica. A vossa saúde meus comparsas... Vejo que estão ansiosos em ouvir...

Aquela criatura, musa de um poeta perdido, falou-me com uma voz de anjo. Se meu destino são os antros infernais. Estou satisfeito em conhecer a beleza da voz angelical, através da fala dela. Sem poder me conter. Tomei suas pequenas e delicadas mãos entre as minhas e as beijei em sinal de respeito e carinho. Disse a ela palavras de paixão, ternura e amor. Gawain, Lancelot, Perceval, Galaad ou qualquer outro cavaleiro dos tempos heróicos não teria as palavras que eu usei. Fui para ela, em coração, um livro aberto. Meus verdadeiros sentimentos, ela os conheceu. Seu rosto iluminado por aquele sorriso... Não há palavras para descrevê-lo... Ouvia a tudo e a tudo consentia. DANADOS DE SATÃ vêem o quão mortificado fico de lembrar! Num gesto leve, tomei-lhe algumas das flores que havia colhido. Senti o perfume daquelas flores, beijei-as, fiz uma pequena grinalda e a ofereci como presente. Ela a recebeu dizendo meu nome. Ofereci o meu anel, como prova de amor e devoção. Diante do altar das Montanhas Yaanek, coloquei o anel em seu singelo dedo. Ela ofereceu um beijo. Eu mergulhei num êxtase ao sabor doce de alcaçuz dos lábios dela. O fogo do amor e da paixão devorou meu corpo e espírito.

Os portais de Merion, famosos por guardar desejos, não encerram nenhum amor tão intenso. Nos salões das delícias do virata de Marcan, onde as orgias são infinitas durante todo ano e as mulheres voluntariosas, não aproximam do gozo do nosso encontro. Nenhuma substância oriunda da flor de lótus, ou papoula, se iguala em odor ao cheiro do nephalot amalgamando com o suor de nossos corpos. De todas as filhas de Eva e de Lilith que conheci nenhuma possuí uma pele tão suavíssima quanto à dela, e tão hábil em receber e proporcionar carícias ousadas. Quaisquer mantos feitos pelo homem para adornar alcovas nupciais, não se comparam com a renda do céu estrelado e a seda do ervaçal. Nossos corpos se encontram em uma pira de fogo alimentado pelo amor. Não pode haver palavras para descrever aquele momento sublime...

Antes do nascer do sol, ela falou que deveria partir. Não quis permitir. Eu encontrara aquela por quem vaguei por toda a terra onírica. Ela tomou minhas mãos.

Pobre de ti – disse-me – caminhante das terras oníricas. Nossos caminhos trilham rumos opostos. Eu devo vagar pelas terras do oblívio, enquanto que tu nas sendas do sonho. O jardim do destino e seus infindáveis caminhos nos fizeram encontrar. Seu mundo não me pertence, tal qual tu não pertences ao meu. Ó Parcas que conhecem as trilhas do destino, por que permitistes este encontro? Sentir um peito que vibra como o teu e ter de deixá-lo, é quase preferível a morte, se isto fosse possível. Destino, guardião do livro da criação, tu és cruel e duro de coração. Tu ofereces com uma mão e retira com a outra.

Flor do amanhecer – eu disse abraçando-a – não haverá um bálsamo para aplacar a dor da sua perda. Seguirei contigo pelos seus caminhos e suportarei qualquer castigo por ti acompanhar. Não quero perdê-la...

Bálsamo, tu diz, sim haverá. Hoje, quem trilha estas veredas um dia seguirá pelos caminhos do esquecimento. Eu irei buscá-lo e o guiarei pelas terras desconhecidas do oblívio, além das ruínas dos velhos e antigos.

Outra vez nos amamos. Nossa despedida se fez entre um gemido e um sussurro de amor. Extenuado dormir naquela relva macia. Acordei com o sol alto no céu. Não a vi mais. A tristeza fez do meu coração sua morada. Lágrimas brotaram dos meus olhos, enquanto eu preparava para seguir meu caminho. Com o coração partido caminhei sem ânimo por entre as ruínas daquela cidade esquecida. Em meio a colunas arruinadas pelo tempo; entre pórticos resistentes à destruição que abateu sobre as casas; por estátuas sem faces; nas ruas transformadas em jardim para as ervas daninhas e as flores, como o nephalot, eu andava. Esperava vê-la surgir por detrás de uma ruína e me abraçar. Mas ela não apareceu. Tentei distrair meu espírito investigando as ruínas. Buscando sinais de quem as construiu. Homens de tempos antiguíssimos. Aquela cidade já estava em ruínas, quando Yscandar dos Dois Cornos e seu exército macedônico chegou até ali...

Logo, nas minhas andanças por entre as ruínas de antigos tempos e com o espírito mergulhado na angustiosa lembrança dela, encontrei um pátio onde havia uma única estátua. Uma estátua belíssima. Ao contrário, de toda a desolação e o mau estado das ruínas, a estátua não sofrera com a passagem do tempo. Seu mármore branco refletia a luminosidade do sol. Suas curvas eram de uma perfeição divina. Obra de um gênio escultor, mestre no uso do cinzel. A túnica marcava os contornos do corpo, em um vento eterno e suave. O cabelo longo escorria e se fundia ao véu. A face cuidadosamente trabalhada evidenciando um nariz aquilino olhava para um buquet de flores – que reconheci como sendo de nephalot e amaheim...

FANTASMAS, DEMÔNIOS MALDITOS escutem minhas palavras. Diante daquela obra divina, eu desmaiei de emoção. Nenhum dentro vós deste antro conseguiria permanecer lúcido diante do que vi. Nenhuma de vossas aventuras levou-os a tal extremo. Diante daquela estátua, eu me perdi para mundo. Tudo ficou claro. Os dias se tornaram insuportáveis para mim, por isso passo-os em longas e intermináveis orgias e excessos. Aguardando o retorno da minha amada. Sua palavra será cumprida. Pois sabeis, nas mãos que seguravam o buquet, perfeitamente trabalhadas que para tal perfeição faltava apenas às flores exalarem o perfume do nephalot e amaheim. Num dos dedos, feito mármore o que outrora era de ouro, estava o anel que antes fora meu.

FIM

sábado, 14 de julho de 2007

Seu Nome

Olhos oblíquos da cor do ébano... Profundos!

De que mundo eles vieram?...

Olhos oblíquos da cor do ébano... Profundos!

O que será que eles pensam?...


Tu surgiste, naquela noite, como algo especial.

Não posso dizer que foi paixão.

Nada naquele momento foi real.

Não posso dizer que foi amor...Não.


Meu peito já não bate mais,

Sobrou-me apenas lembranças...

De um momento que não volta jamais,

Mas ainda me resta as esperanças...


Pôr que? És tu!...


Olhos oblíquos da cor do ébano... Profundos!

De que mundo contam histórias?...

Olhos oblíquos da cor do ébano... Profundos!

O que será que eles viram?...


Sou tolo... Reconheço...

Que de mim sinto ódio

Mas é pôr ti que padeço.

Mesmo mergulhado em ópio...


Se os sonhos que ti acompanham.

Pôr um instante, ao menos, eu os viveria,

E não mais padeceria.

Como?... Como os céus te chamam?


Diga-me...

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Passos... Passos


Passos. . . Passos. . .

E a vida passa!

Passos. . . Passos. . .

Tudo passa.


Vento...

Sopra sussurrando;

Sonhos silenciados;

e o silêncio inspirado

Vai-te as horas soltas,

micênicas, solteiras,

soluçamtes. . .

Só - fico só.

Vento sopra sussurrando

cantando “Confutatis”


Passos. . . Passos. . .

E a vida passa!

Passos. . . Passos. . .

Tudo passa.


Com ela se vai meu sopro.

Com ela se vai minha alegria.

Só me resta saudades soltas.

Com ela se vai minha pousada.

Com ela se vai meu despertar.

Só me resta uma solidão soluçante.


Passos. . . Passos. . .

E a vida passa!

Passos. . . Passos. . .

Tudo passa.


Semblante sofrido,

Surrado... falecido. . .

Vão-se os amigos queridos.

Vão-se os dias compartilhados.

Vão-se os sonhos divididos.


O que sobra?

O último suspiro

O último suspiro

Ibn Schaccabao disse:

A dor da partida só é percebida, quando os verdadeiros sentimentos são conhecidos.

Diante destes frontões rochosos, esta frase dói como num suspiro de agonia. O crepúsculo de cores claras e tristes se abre em espetáculo atrás de mim. Iluminando em fantasmagoria aquelas rochas carregadas de liquens esverdeados. Nesta praia de desventuras, eu espero. Não há vinho, tabaco ou fumaça de espirais capaz de vencer tal cenário perdido às margens do esquecimento.

Certa vez eu vivi como todas as criaturas que trilham a terra da realidade. Nestes dias iluminados pela luz do astro-rei, apesar d’eu viver mais sob os auspiciosos acalantos das estrelas, compartilhei venturas, histórias e copos. Sou dado a perder-me nas veredas das emoções. E nas minhas emoções perdi-me dentro de incontáveis histórias. De todas hoje sou esquecido. Parto sem ser lembrado. É esta a sina dos noturnos, arrebentarem-se na companhia de ingratos, com a bebida e o charuto, a corda do coração sempre apaixonado e doente.

Certa vez eu vivi para conhecer outros homens e seus angustiados sonhos. Sombras de outros tempos em velhas reuniões em lugares esquecidos. Eu conheci seus terrores, seus amores e suas dores. Afortunado foi, dirão alguns ao conhecer o elenco de personagens, mas as negruras da ilustração cobraram um preço alto. Levaram minha esperança. Por isso estou nesta praia ao arrebol.

Diante dos frontões rochosos, desta praia do oblívio, está cravado um portão de bronze carcomido, sujo e enferrujado pelo tempo. Velhas línguas foram riscadas entorno deste pórtico ancestral. Todas foram esquecidas. O que será que estas palavras dizem? Não importa. Aqui estou. Não carrego ódios ou alegrias, apenas melancolias de frias noites solitárias.

Portão, senhor de destinos perdidos, por que não se abre à minha presença? Sigo hirto para minha sina. Por que, diga-me velho guardião, não me entregas à perdição?

Teus conhecimentos, tu deve esquecer se quiser conhecer – diz uma voz estrondosa ao vento sussurrante. Ah! Atroz Chronos por que destrói mais uma criatura como eu? Se, é verdade que os homens são os que conseguem melhor relacionar em seus conhecimentos. Perder o que se sabe é não poder conhecer mais. É por fim deixar de ser homem? Quão alto é o preço para se estar além das terras do sol. Portão saiba que teu preço eu estou disposto a pagar, para que em outras esferas possa vagar. Abriste. Deixe-me passar. Se tudo eu devo esquecer até meu charuto irei apagar.

Certa vez eu vivi. O portão se abriu. Lembrando e esquecendo, fui andando devagar. Minha vida, infância e juventude, pouco a pouco foram se esvaindo. Amores, disputas, sonhos e desejos ao vento foram se elevando, tal como folhas secas. A cada passo, fui esquecendo quem eu sou, ou fui. Meu coração batia lentamente. Sou esquecido pelo mundo ao qual fui um ingrato devotado, mas também, escureço meus olhos para tudo o que me fora dado.

Certa vez eu parti. Nas trevas do umbral do portão, somente uma lembrança restou. Antigo delírio de outros tempos, esquecido dentro da imensidão da minha memória e agora despertado. Nas portas do reino do esquecimento, só uma lembrança bastou. E que muito me alegrou.

Antes de tudo para sempre escurecer, vi seu rosto em sorriso florescer...